Luís Mendes investiga fósseis em âmbar que contam história da biodiversidade

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Luís Mendes investiga fósseis em âmbar que contam história da biodiversidade

Mensagem  Mandrágora em Seg 28 Jan 2013 - 9:24




Luís Mendes investiga fósseis em âmbar que contam história da biodiversidade

Os raios de sol de Inverno encadeiam ao incidirem sobre o rio Tejo. Próximo da zona ribeirinha de Lisboa localiza-se a unidade de Zoologia do Jardim Botânico Tropical do Instituto de Investigação Científica Tropical, num edifício do século XVIII. Aí, entre muitas outras, estão preservadas as colecções de animais obtidos desde os anos quarenta do século passado em especial em África. Vamos ao encontro de Luís Mendes, investigador dedicado ao estudo dos insectos.

Por um labirinto de pequenos corredores e salas chegamos ao gabinete de Luís Mendes. Por esta altura o olfacto já conseguiu habituar-se ao cheiro intenso a desifectante, produto outrora utilizado para conservação dos insectos ali guardados.

A conversa vai versar sobre o estudo de inclusões de insectos em fósseis em âmbar. Sobre a mesa de trabalho do investigador estão as pequenas pedras de âmbar com o insecto dentro. Há dois anos que são objecto de estudo por parte do entomologista de 66 anos.

“O âmbar dificulta o estudo porque não se pode retirar o insecto para o dissecar e analisar. O âmbar é a resina fossilizada de uma planta, nestes casos de uma leguminosa de floresta tropical e de uma conífera. Os insectos caem na resina e acabam por morrer afogados”, explica Luís Mendes.

A resina pode depois cair, por motivos diversos, e perde para a atmosfera os componentes gasosos até solidificar. “Se ficar transparente temos sorte de ver o que está dentro”, diz o investigador. Foi o caso dos fósseis em âmbar que tem sobre a mesa, oriundos da República Dominicana, do México e de Myanmar (antiga Birmânia).



Os primeiros estão datados do período Oligocénico, haverá uns 20 milhões de anos, os birmaneses, dos finais do Jurássico, há mais de 100 milhões de anos, ou seja, foram contemporâneos dos dinossáurios. “A datação é feita por processos diversos, incluindo o estudo dos grãos de pólen presentes no interior das mesmas peças de âmbar”, comenta Luís Mendes.

“Estes insectos são designados como peixinhos-de-prata e pertencem a duas ordens muito primitivas de insectos sem asas, ambas já individualizadas no final da Era Primária ou Paleozóico, haverá uns 250 milhões de ano”, adianta o nosso anfitrião no mundo dos fósseis em âmbar.

De forma entusiasta explica que conhecer estes insectos, “aliás qualquer espécie”, contribui para “o conhecimento da biodiversidade”. Na unidade de zoologia trabalha sozinho, mas conta com a colaboração de investigadores espanhóis, um em Barcelona e dois em Córdova.

Mas a entomologia abrange outras áreas de saber e Luís Mendes vê-se muitas vezes “perdido” em longas conversas. “Há dias passei umas horas a discutir placas continentais”, comenta.

E a discussão tinha uma relação com o trabalho de investigação dos fósseis em âmbar porque este estudo, em particular os fósseis da Birmânia, insere-se num debate mais alargado sobre o posicionamento das placas e sobre as rotas de penetração das espécies que terão conduzido à recente distribuição conhecida dos vários géneros.

O investigador pormenoriza que “a investigação desenvolvida exige, assim, que se combine conhecimentos de entomologia fundamental, de evolução, de biogeografia recente e de paleogeografia dos insectos com que se trabalha, pois só deste modo poderemos vir a ter um conhecimento mais aproximado da realidade de ‘quem eram’ e de como viviam”.

Esta investigação dos insectos de ordens primitivas, sem asas, que terão dado origem aos insectos que temos hoje, já permitiu a Luís Mendes “descrever nestes âmbares três novos géneros, e detectar um outro que não consegui caracterizar a 100% mas tenho fortes indicadores do género a que pertence”.

Os resultados deste estudo foram já apresentados à comunidade científica em Agosto de 2012, no decurso do XIII International Colloquium on Apterygota, na forma de um “poster” e de uma comunicação oral.



Fonte: Ciência Hoje

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